Se o seu ganha pão passa por vender bens ou serviços que foram pensados para uso eterno ou durante um longo período de tempo – como carros, casas, móveis ou até bicicletas, fique sabendo que o pior pode estar para vir. A nova geração está a crescer e muito em breve começará a ter poder de compra. Mas de nada serve esse poder de compra para quem vende, se estes preferem arrendar ou pedir emprestado.

Os mais novos já não anseiam por comprar o seu primeiro carro porque desde cedo conseguem suportar um renting automóvel, já não compram álbuns de música que se acumulam nas estantes do quarto porque ouvem os artistas do momento no Spotify, já não investem o seu pé de meia no apartamento à beira mar que sempre sonharam porque podem arrendar e mudar de ares todos os meses, já não vale a pena criar uma boa relação com a Dona Adelaide do restaurante típico que os trata como netos, porque é mais cómodo ficar em casa à espera da comida que pedem no UberEats, e para quê ficar com o cartão de visita do Senhor Carlos que gentilmente lhes cedeu a casa em Vilamoura no ano passado? É mais simples ir ao Airbnb e aproveitam para ficar em três casas diferentes durante a semana de férias. Até as bicicletas estão a ser alvo destas mudanças de pensamento. Já não é coolandar de BMX com os amigos a fazer manobras radicais na rua porque agora é possível partilhar bicicletas comuns em qualquer lugar do planeta através de aplicações mobile. Basta para isso pagar uma pequena quantia e a bicicleta será sua durante três horas e depois basta devolver num local assinalado. Já não faz sentido ficar na garagem a ganhar pó.

Mas não são só os Millennials que fogem do património, e procuram o imediato. As gerações vindouras, nascidas no digital, podem mesmo passar a vida inteira sem conhecer a genuína sensação de pertencimento. O senso de propriedade é oriundo da combinação de três sentimentos: orgulho, pertencimento e realização. O meio tecnológico e digital constrói enormes comunidades virtuais, mas que são isso mesmo: virtuais. E se são benéficas em tantos fatores, em tantos outros são destruidoras. As pessoas vivem com a sensação de que têm eternamente um escudo protetor entre si e a outra pessoa, perdendo a longo prazo, a necessidade do toque e da comunicação olhos nos olhos.

O elevado crescimento de espaços de trabalho partilhados já não se prende apenas com o aparecimento e explosão das profissões liberais e por conta própria. As empresas já assumiram a sua efemeridade e preferem não investir em imóveis que poderiam ser um peso no futuro. Estamos a assistir ao aparecimento de uma geração empresarial, que também ela, foge a sete pés do património.

Por alguma razão, hoje em dia, as pessoas preferem ter horários de trabalho mais flexíveis, independência económica e geográfica, contrariando o que antigamente era tido como prosperidade e estabilidade pessoal. No fundo, a evolução trouxe a importância de “angariar” experiências e está a deixar de lado a necessidade de obter e manter bens que criem valor e estabilidade. É de experiência que se fala quando alguém paga por um serviço mensal de streamingde vídeo em vez de comprar um DVD. Já não necessita do suporte físico, porque o meio digital não ocupa espaço e está em permanente mudança e evolução. Hoje existe uma subscrição que nos dá acesso, mas amanhã é possível cancelar e deixar de suportar esse gasto. O mesmo está a acontecer com as relações pessoais e com a nova geração de casais que se conhecem através de aplicações para o efeito. Equilíbrio e bom senso são as palavras chave para o sucesso e para a criação de valor nas mais diversas áreas da vida pessoal e profissional.

Publicação da Página 12 do Diário de Aveiro – Edição de 8 de Agosto de 2018

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