A revista inglesa Wired noticia que o governo chinês está a planear o lançamento de um sistema de avaliação social chamado Social Credit em 2020. Com que objetivo? Monitorizar e avaliar os seus 1,3 biliões de habitantes.

O resultado das avaliações diárias irá determinar o quão inteligente, confiável, trabalhador e útil é o cidadão para a sociedade. Por outras palavras, imagine um sistema onde os nossos comportamentos diários são classificados como positivos ou negativos e transformados num único número, de acordo com as regras estabelecidas pelo governo.

Os leitores que acompanham a série televisiva Black Mirror certamente se lembrarão do chocante primeiro episódio da terceira temporada, em que chegamos a sentir vergonha alheia pelos atos que a personagem principal comete. Esta desce de nível o mais baixo possível, chegando a humilhar-se publicamente, com objetivo de subir o seu rating social e, desta forma, conseguir regalias sociais como ser convidada para eventos especiais, viver em determinada rua ou mesmo conseguir um empréstimo bancário. E não, não falo de ter boa reputação na sua rua e ser conhecido como uma pessoa simpática e altruísta. Falo de ser alvo de avaliação continua através de aplicações digitais desenvolvidas para o efeito. Se o seu rating for positivo, terá boas oportunidades. O contrário fechará muitas portas à sua vida social.

Na série, a personagem principal tenta pedir ajuda numa autoestrada pouco movimentada ao ter problemas com o seu veículo, mas os condutores que passam recusam-se a parar graças à sua baixa classificação.

Por agora, este cenário parece pura fantasia. Mas prepare-se, em breve pode começar a ouvir falar deste tema mais regularmente do que alguma vez pensou.
De certa forma, já avaliamos e somos avaliados. Por mais que se negue, quem tem Instagram, por exemplo, segue alguém e quer ser seguido. Será que não podemos chamar ao número de seguidores, o social rating dos tempos atuais? Porquê é que as marcas oferecem constantemente os seus produtos a ilustres desconhecidos (também apelidados de micro influenciadores), com objetivo de os ver partilhados nas suas redes sociais? Porque têm muitos seguidores, ou seja, tem um bom social rating, são confiáveis e são uma influencia na ótica dos seus conhecidos virtuais.

A avaliação e categorização humana, segundo o que é socialmente estipulado como bom e mau, é perigoso. A sua utilização “sem limites” não trás benefícios suficientes que compensem o risco da sua aplicação na nossa sociedade, que claramente, não está preparada para tal. Como em tudo na vida, o equilíbrio é a palavra-chave e a adequação desta ferramenta à realidade de cada sociedade é fundamental. Em suma, tal como disse Stephen Hawking na sua aparição na Web Summit, a “inteligência artificial pode ser a melhor ou a pior coisa para a humanidade”, ou seja, existe a necessidade de fixar um código de ética para a tecnologia e para todas as ferramentas que dela são originárias.

Artigo de opinião João Valente

Este artigo foi publicado no jornal Diário de Aveiro, edição de dia 11 de Novembro de 2017.

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