Não é por acaso que “pós-verdade” é a palavra do ano 2016. Grande parte dos acontecimentos marcantes do ano passado foram influenciados pelo que foi publicado na internet.

A campanha de Trump é o melhor exemplo disso. Enquanto Trump repousava tranquilamente na sua cadeira de escritório, os seus apoiantes encontravam um caminho perigoso, mas fácil de explorar e com resultados comprovados: a criação, publicação e reprodução em massa de notícias falsas, conspirações populistas e exposição de conteúdo pessoal de opositores. Haverá sitio mais fácil para o que fazer que as redes sociais? Não.

Artigo de opinião publicado quinta-feira, dia 12 de janeiro, da autoria de João Valente.

Por falar em notícias falsas, em 2016 as redes sociais Facebook e Twitter foram campeãs nesta modalidade. Engane-se quem acha que este negócio das notícias falsas escritas por quem só quer aproveitar o ruído na web não assola a Europa. Vários acontecimentos (inclusive em Portugal) foram marcados pelo excessivo buzz em páginas de Facebook e contas no Twitter que debitaram um número incalculável de mentiras por segundo, fazendo com que seja cada vez mais difícil separar a verdade da mentira. Mas se os responsáveis por estes meios de difusão sabem deste problema, porque não o resolvem? Na verdade, o Facebook anunciou recentemente que vai começar a denunciar e punir tentativas de desinformação. A rede social não vai decidir o que é verdadeiro ou falso, mas vai adicionar às partilhas um alerta a indicar que a veracidade de uma informação é disputada por equipas de verificação de factos e de que forma é que estas fundamentam a sua contestação. Continuará a ser possível partilhar conteúdo potencialmente enganador, mas será exibido um alerta a dizer que a sua veracidade é contestada.

A forma como os resultados apresentados no maior motor de busca do mundo podem ser manipulados também começa a preocupar os especialistas do digital. O Google é conhecimento, até porque é lá que encontramos as respostas mais rápidas para o que procuramos. Contudo, se as respostas dadas sofrerem influência, seja ela positiva ou negativa, irá afetar (mesmo que de forma subconsciente) a perceção das coisas. Segundo Jonathan Albright, professor da Universidade Elon na Carolina do Norte e especialista em jornalismo de dados, estamos perante uma verdadeira guerra de informação. Este especialista lançou um mapa que pretende reproduzir o ecossistema das notícias falsas, denunciando uma vasta rede de páginas que trabalham diariamente em função da contrainformação.

Todos temos dificuldade em assumir que a internet é real. Mas deixe-me relembrar que o que fazemos na internet não fica na internet, até porque é e sempre foi uma extensão da vida real. Notícias falsas podem alimentar ciclos reais de notícias, teorias da conspiração podem ter consequências no mundo real, uma pesquisa do Google pode alterar padrões de pensamento reais, tendências e vídeos virais são feitos por pessoas reais e são essas pessoas reais que decidem o nosso futuro. Cabe a nós continuar a utilizar a internet para o bem, pensando e sendo críticos no que partilhamos e no que publicamos. Afinal é isso que fazemos no dia-a-dia nas relações pessoais, certo?